Água Sanitária

18 novembro 2008

I quit

Arquivado em: Uncategorized — alvejante @ 8:59 am

Eu tava conversando com um amigo sobre a maravilhosa sensação de pedir demissão. É melhor que terminar com namorado paunocu. Porque você sabe que o seu antigo trabalho não vai ficar te ligando porque “precisa conversar”, nem muito menos vai criar climão na próxima vez que vocês se encontrarem. Mas a política de não-sinceridade é a mesma.
Por exemplo, se você pede demissão alegando que vai se dedicar aos seus projetos pessoais, na verdade está pensando “eu prefiro ficar em casa de bobeira a perder meu tempo todo dia nessa espelunca”. É como quando você vai terminar pensando “antes só do que mal acompanhada”, mas fala “eu preciso de um tempo pra mim mesma”.
Mas se você arruma outro emprego ruim e vai embora só por causa de grana, isso não pode ser dito. Pega mal pra reputação você ser uma vendida. Seria a mesma coisa que terminar com um namorado paunocu de pau pequeno pra ficar com um namorado paunocu de pau grande. Nesse caso, você se sente eticamente obrigada a fingir que existem sentimentos, ou melhor, interesses profissionais e daí fala algo tipo “é que eu acredito que lá vou ter mais oportunidades de crescimento e também o salário é um pouco melhor”. Como se o tamanho da grana ou do pau quase não importasse.
Tem também aquelas ameaças de demissão que, assim como no namoro, não funcionam. Você esperneia, chama na chincha, fala que é a última vez que você vai aturar isso. Mas tanto o emprego quanto o namorado sabem que você não vai ter coragem de ir embora. No máximo a situação muda por uma semana e depois tudo volta a ser como era antes.
Existe aquela demissão que você pede quando sabe que vai ser demitida. É tipo quando você está sacando que o namorado paunocu vai terminar com você, mas faz questão de sair por cima. Nos dois casos, depois de algum tempo, você começa a se dar conta de que, de repente, dava pra ser de outro jeito. Mas daí é tarde demais.
E o caso de quando você pede demissão para ir para outro trabalho notavelmente muito melhor. Daí quase não são necessárias palavras. Você só diz “recebi uma proposta da empresa tal” e seu chefe olha como se ele soubesse que não tem volta. É como se você virasse pro namorado paunocu e dissesse “cara, tá rolando um clima com o Clive Owen”. Não há nada que possa ser feito. É o Clive Owen, cara, você não vai querer nem começar a competir com ele, né?
O que importa é que, tanto no namoro quanto no trabalho, é bom terminar sem sacanear ninguém. Até porque, o mundo dá voltas, e você nunca sabe quando vai precisar de um ex-namorado ou de um ex-emprego. Às vezes um ex-namorado indica você pra um futuro emprego e num ex-emprego acaba surgindo um futuro namorado. Nunca se sabe.

21 agosto 2008

Puppe

Arquivado em: Uncategorized — alvejante @ 4:29 pm

Já havia 20 anos que ela ficava ali sentada. Sua distração era acompanhar a luz do sol passar pelas persianas da janela e se espalhar pelo voil. À noite, quando o sol sumia, via o amarelo das lâmpadas de tungstênio invadindo o quarto pela fresta embaixo da porta e pelo buraco da fechadura. Sentia a poeira se acumular nas trancinhas de seu cabelo ruivo e encardir os babados brancos de seu vestidinho verde. Uma vez a cada quinze dias, alguém vinha, abria o cômodo, colocava a colcha e o tapete no sol, batia nas almofadas e espanava seu rosto. Nessas ocasiões, comumente ouvia comentários ofensivos a seu respeito, chamando-a de tralha velha e dizendo que já deveria estar no lixo há tempos. Às vezes a colocavam sentada de mal jeito e ia aos poucos caindo por cima do urso que ficava ao lado. Passava dias ali caída de forma humilhante, até que alguém decidisse levantá-la. Ela chegou à casa quando sua dona era ainda muito criança. Veio de Frankfurt apertada dentro de uma mala de couro da tia da dona, dividindo o espaço com perfumes e outras bugigangas novas e sapatos velhos. Nunca vai se esquecer da carinha da dona quando a viu pela primeira vez. A dona era uma menina linda, sempre com suas roupinhas combinando, pequenas meias soquete com babado e sapatos boneca de prender na canela. Quando a dona sorria, sua vida fazia sentido. Gostava de ir ao jardim com a dona e lá se surpreender com as falas que a dona criava para ela. Não que a dona não tivesse outras bonecas. Ela tinha. Muitas. Mas as outras geralmente vinham como modismos passageiros e ela sempre voltava a ser a favorita.  Mesmo assim, ficava apreensiva perto do Natal, do mês das crianças e do aniversário. A família da dona adorava dar presentes. A cada ano que passava, a enorme estante em que ficava ia se enchendo. Havia épocas em que realmente ficava desconfortável e apertado ali para ela. Mas nada foi tão ruim como a vez em que sua cabeça foi arrancada pelo primo da dona e ela passou uma semana num empoeirado hospital de brinquedos. Aos poucos, viu a dona crescer. Ouviu as confidências que a dona fazia às amigas quando dormiam lá. Queria arrumar um jeito de consolá-la quando se decepcionou com seu primeiro namoradinho. Sua vontade era a de fazer a dona parar de crescer a qualquer custo, mas não tinha jeito, o tempo passava e ela ficava cada vez mais abandonada. Houve uma época em que todos os brinquedos foram trocados por livros e a dona passava cada vez menos tempo em casa. Foi aí que aprendeu a se distrair com o movimento do sol nas persianas. Nos últimos tempos, houve uma tarde muito movimentada na casa. Parece que vieram muitos parentes para algum tipo de festa. Ouvia secadores de cabelo no banheiro ao lado. As empregadas corriam para um lado e para o outro. De repente, a dona entrou no quarto. Nunca a tinha visto tão bonita. Usava um lindo vestido branco longo com rendas e botões de pérola nas costas, véus brancos sobre a cabeça e uma suave e impecável maquiagem. Aquela visão a impressionou de tal maneira que só conseguia pensar nisso durante dias a fio. Pensou em todas as possibilidades, até que chegou à conclusão de que a dona tinha crescido e virado também uma boneca. Pelo menos, ela desejava que sim.

7 agosto 2008

Junkeado

Arquivado em: Uncategorized — alvejante @ 3:58 pm

Em Goiás, todas as comidas têm um “toque especial” ou, como eu gosto de falar (inspirada nos filmes suecados de “Be Kind Rewind”), as comidas aqui são “junkeadas”. Vou tentar explicar superficialmente esse processo mas, por favor, entenda que o buraco é bem mais embaixo. Basicamente Goiás não tem praia e isso reflete em várias esferas comportamentais. Sem praia não tem biquininho. Sem biquininho não tem preocupação com o corpo, daí todo mundo come muito, o tempo todo e junkie food. Nada contra quem não se preocupa com o corpo, na maior parte do tempo eu não me preocupo, mas é engraçado ver esse fenômeno em massa. Essa observação começou quando fui a uma casa de lanches chamada “Biscoitos Pereira” e pedi um salgado que parecia pão doce, se chamava enroladinho de queijo e tinha gosto metade de pão doce, metade de enroladinho de queijo. Como assim? É um enroladinho de queijo com cobertura de açúcar e coco, ou seja, um enroladinho de queijo junkeado. Todas as comidas podem ser junkeadas, até as que são consideradas naturebas. Por exemplo, o açaí daqui é junkeado porque tem o triplo de xarope de guaraná do que eu estava acostumada, é extremamente doce. Tenho que chegar na lanchonete e pedir um “açaí praticamente sem guaraná”. Esses dias eu vi até uma salada junkeada. Era um mix de folhas com bacon. Sim, eu disse bacon. É, no mix de folhas. Até as coisas mais simples como um misto-quente podem ser junkeadas. Todo mundo sabe que um misto-quente é um sanduíche que consiste de pão (geralmente de fôrma), queijo e presunto. Mas não, nunca é o suficiente pros goianos. Sempre dá para adicionar algum ingrediente pra fazer um agrado, oferecer um bônus ao cliente. Por isso, o misto-quente lá perto de casa é constituído de pão, queijo, presunto e catupiry. A empada leva batata em cubinhos e pimenta de cheiro. E isso, para quem vem da terra da Empada Brasil, é grave. Aqui não é incomum ver uma mulher tomando coca normal e comendo pão francês comentando que está de dieta. Esses dias uma moça que trabalha comigo estava tomando café, daí encheu o copo de leite integral e duas colheres lotadas de açúcar e disse que estava dando uma maneirada porque havia engordado muito. Enquanto eu era considerada junkie no Rio, aqui me sinto muito, muito light. Mas nada vai conseguir me causar mais horror que o dia em que reclamei que minha cerveja estava quente e fui prontamente “ajudada” por um amigo “prestativo” que colocou gelo no meu copo. Pode junkear tudo, eu não ligo, mas aguar a minha cerveja, não.

1 agosto 2008

Sábado

Arquivado em: Uncategorized — alvejante @ 10:18 am

Fim de tarde de sábado, ajuda a mãe a empanar dois centos de risoles de milho, mais entediada que ontem e menos que amanhã, mas sem reclamar. O celular toca “cedo ou tarde a gente vai se encontrar” do NX Zero, meio distorcido, mas não o suficiente para que a incomodasse. Ainda com um pouco de massa agarrada na palma da mão, ela atende. “Alô? Oi! Tá boa? Ai, não sei. Quanto tá? Tô sem dinheiro. Não sei. Vou tentar pedir pra minha mãe. Beijo. Fica com Deus.” Limpa a capa do celular na camiseta de algodão desbotada. Pede o dinheiro para mãe. Sorri. Pede mais um pouco de dinheiro para mãe, que já não tem mais noção nenhuma de quanto custa sair para se divertir e se enturmar. Aliás, mãe, ninguém mais fala enturmar, por favor. Beija a testa da mãe, limpa a mão no pano de prato com o bordado de sexta-feira. Ela nunca entendeu por que comprar panos de prato com os dias da semana bordados se não for para usá-los nos dias da semana certos. Ainda leva bronca por ter grudado massa no pano de prato da sexta no sábado. Vai para o quarto, abre as três portas do guarda-roupa e procura a roupa certa para ir ao show da Mulher Melancia. Não que ela ache alguma graça na Mulher Melancia, mas os carinhas acham. E, como só tem uma Mulher Melancia, algum carinha tinha que sobrar pra ela. Não poderia escolher algo que salientasse demais suas curvas pouco melancíicas, nem algo que não as salientasse nada. Um meio-termo, a frente única turquesa com paetês da feira da lua e o bom e velho jeans clarinho Jean Darrot. Xingando, entra no chuveiro, essa merda que só pinga. Sai do banho, maquia-se, coloca o bracelete dourado, tira, coloca o bracelete branco. Agora sim. Pega seu capacete rosa, sobe na moto e vai encontrar as amigas, que estão fazendo um esquenta no barzinho. Cu de lei seca, nem beber se pode mais. Ela que não ia correr o risco de ser pega por um policialzinho espreitando o boteco, pagar 900 contos que ela não tinha e voltar a andar de ônibus. Fica com sede, se vira. Entram no show. Cheio por demais. Por que essa mania das amigas de se embrenharem lá na frente sempre. Sempre. Todo show acontecia isso. As amigas iam se enfiando no meio da galera, ela seguindo e, quando se dava conta, as duas opções já eram ruins: continuar no espreme-espreme com as amigas ou voltar sozinha no meio do galerão. Ah nem. Sóbria e sem espaço para dançar. Naquela hora, se sentiu velha aos 19 anos. Lá pela quarta música, que era tão nova para ela quanto as anteriores, surgiu um carinha. Finalmente. Bem vestido, devia ser playboy. Tava muito doido. E daí, não tava procurando marido. Não no show da Mulher Melancia, né? Ele disse algumas palavras, que ela não entendeu. Ela falou algumas palavras, que ela tinha certeza que ele também não entedeu. Ele passou o braço na sua cintura e eles se beijaram. Beijava mais ou menos esse carinha. Daí, ele saiu correndo, empurrando as pessoas, abrindo caminho. O show continuou, a noite continuou. As amigas zuaram, falaram que o carinha saiu correndo dela, que ele sentiu o cheiro do seu mau humor, que ele ficou com medo da mãe dela e mais um monte de piadinhas sem graça. Ai, como é tão melhor quando escolhem outra pessoa pra zuar. Acabou o show. Empurra-empurra pra sair. Deixou uma amiga em casa, teve que dar a maior volta para isso, não entendia como que sempre caía nessa mesma roubada. Dormiu, acordou, viu Domingão, saiu para conversar na pracinha, dormiu, acordou, foi para a faculdade, dormiu e acordou vários dias. E daí, na sexta-feira seguinte, viu o carinha de novo AQUI. Agradeceu a Deus pelos risoles de milho que sua mãe vendia, pelo pano de prato com dias da semana, pelo chuveiro que pingava, pelas amigas que faziam sempre as mesmas coisas, pelo tédio e por sua vida.

29 julho 2008

Bom também

Arquivado em: Uncategorized — alvejante @ 1:19 pm

Tenho resistência à maioria das gírias goianas. Acho difícil daqui a um tempo eu estar falando “ah nem” ou comentar que fulano comeu “até”. Acho muito difícil. Mas existe uma gíria que é gostosinha demais de ouvir e de falar. É o “bom também” que tem a versão roots “bão tamém” e essa outra, que é mais polidinha. Esse é o jeitinho goiano de concordar discordando, de dar o braço a torcer.
- E aí? Vamos pro barzinho?
- Pô, não to afim não. Vamos ficar em casa.
- Bão tamém.
Adoro.

24 julho 2008

Sapato Virado

Arquivado em: Uncategorized — alvejante @ 2:19 pm

Gosto de gato preto. Aquele bicho maneiro, esguio, que surge do nada. Às vezes passo por debaixo de uma escada ou outra. Sem problema. Já quebrei alguns espelhos. Nunca de próposito, até porque estilhaça, faz bagunça, machuca. Se o guarda-chuva precisa secar, eu o abro no meio da casa. De preferência na sala, que é para não esquecê-lo no dia seguinte. Bom, diante dessas observações, sou levada a crer que não sou uma pessoa supersticiosa. Mas brincar com a sorte é pessoal e intransferível. Por isso, morro de medo de sapato virado. Vocês sabem as consequências na teoria, né? Eu tenho até pudor de escrever. Deixar o sapato virado é como declarar que não se importa com essas consequências da mesma maneira que não se importaria com o seu próprio azar. E daí vem todo o questionando racional de que é óbvio que não seria um sapato virado que causaria tamanha tragédia. Que é automaticamente respondido pelo questionamento emocional de que não vale a pena arriscar. E daí, é mais fácil desvirar o sapato.

Drops Filosóficos por E-mail

Arquivado em: Uncategorized — alvejante @ 1:16 pm

Com saudade de um grande amigo meu e das conversas que tínhamos sentados na sala da minha casa no Rio, escrevi um e-mail, que segue na íntegra:

“Esses dias eu li que a gente deve se focar nas nossas vontades e não nos nossos desejos. E fiquei pensando sobre o que seria a diferença entre vontade e desejo. Cheguei a algumas boas conclusões que eu queria dividir com vocês, que definitivamente são sempre as melhores companhias para repensar as coisas. O desejo é aquele sentimento que perturba. É quando você quer uma coisa tanto, mas tanto, que você pensa nela o tempo inteiro. A vontade é uma coisa que você quer muito, mas que você até esquece. A vontade é constante, mas não tira sua paz. Se alguém me perguntar hoje se eu tenho vontade de ter filhos, posso dizer que sim. Mas se alguém me perguntar se eu desejo/quero ter filhos, eu digo que não. Ano que vem, podem me perguntar novamente e a minha vontade não muda. É mais ou menos como a diferença entre paixão e amor. O desejo e a paixão são controláveis até certo ponto. Com um certo nível de auto-controle,  escolhe-se desejar algo ou se apaixonar por alguém. Mas o amor e a vontade são incontroláveis, né? Eles vão amadurecendo com o tempo ou não, sem que você consiga determinar o que vai ou não evoluir pra isso. Vocês se lembram daquele filme Quem Somos Nós? Eles diziam que a gente pode fazer o que quiser da nossa vida, né? Desde que a gente realmente deseje aquilo. Mas, olha só, eles não tavam falando de desejo, eles tavam falando de vontade. De uma coisa muito mais sutil do que ficar obcecado com um objetivo. A vontade é sutil, ela é o background enquanto a gente fica prestando atenção nas coisas que acontecem aqui na frente. Pensem nisso, ta?
 
Beijos. Amo vcs.”

PS: O e-mail foi para um amigo, mas o ”vcs” se justifica porque o maridón foi copiado.

9 julho 2008

Fêmea

Arquivado em: Uncategorized — alvejante @ 10:43 am

No começo ela era ela mesma. Bruta, boba, burra e feliz demais. Daí veio a rejeição. Bruta! Boba! Burra! Feliz demais! E pensava noites a fio em qual poderia ser a solução. Talvez se fosse mais delicada. Quem sabe se jogasse melhor. Provavelmente se fosse mais culta. De alguma maneira, se juntasse a meiguice da Natália, a malandragem da Gisele e a inteligência da Maíra, ela se tornaria mais interessante. E se tornou. E jogou melhor. E foi mais delicada. E culta. Daí não havia mais rejeição. Só que não era feliz demais. E ela pensava noites a fio em qual poderia ser a solução. Talvez se voltasse ao começo e fosse ela mesma. E foi. E nunca mais jogou. E às vezes era bruta, às vezes era burra. E daí percebeu que não importava quantas vezes houvesse rejeição, só precisava ser aceita uma vez. E foi todo o tempo feliz demais.

11 junho 2008

Cala a boca

Arquivado em: Uncategorized — alvejante @ 4:34 pm
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Mesmo intensificado nas últimas semanas, o trânsito goianiense ainda é o que me recuso a chamar de engarrafamento. Exceto pela falta de habilidade goiana para dirigir em tráfego mais intenso, são poucos os problemas. Ontem enquanto voltava para casa enfrentei mais uma vez isso que me recuso a chamar de engarrafamento. Seriam vinte minutos para chegar até minha casa e não os habituais dez. “Infernal”, como dizem os assustadíssimos nativos. A volta poderia estar mais agradável, não fosse o cabo auxiliar quebrado com o qual eu brigava para ouvir às minhas músicas. Bem no meio de uma dessas batalhas, surge à minha esquerda um carro que transportava uma família: mãe à direção e três crianças entre oito e doze anos de idade. A mãe, com cortesia, pediu a vez. Eu, como pessoa educada que sou, concedi. Tudo correria perfeitamente, não fosse o fato da mãe cortês estar prendendo uma faixa inteira de veículos com o carro atravessado, prendendo o fluxo daquilo que me recuso a chamar de engarrafamento. As crianças dentro do veículo começaram uma briga com direito a berros e tapas enquanto os veículos atrás da mãe cortês buzinavam sem parar. No ápice desse momento caótico, a mãe cortês sofreu uma transformação drástica e gritou a uma altura absurda: C A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A L A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A B O O O O O O C A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A A! Um grito que causou tremedeira nos meninos que brigavam e nos motoristas que apertavam as buzinas. O sinal abriu, todos andaram, a paz foi restabelecida e eu, mais uma vez, tive certeza de que não estou preparada para ter filhos. Não tenho nem as cordas vocais necessárias pra isso.

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